FUMANTES E NÃO-FUMANTES: UMA CONVIVÊNCIA PACÍFICA É POSSÍVEL?

Recentemente em um grande jornal de São Paulo, a escritora Clarah Averbuck escreveu uma crônica intitulada “Autodestruição em Casa”. A autora, fumante convicta, destilava sua revolta contra o policiamento cada vez maior sobre o ato de fumar. Com um texto recheado de expressões agressivas como “Dá licença se eu quiser morrer?”, “... parem de nos aconselhar e deixem que cuidamos da nossa autodestruição” a autora conseguiu despertar algumas reações iradas dos leitores na seção de cartas.
 
De fato, tenho observado que o cerceamento ao fumo tem colocado fumantes e não fumantes entrincheirados em lados opostos numa guerra que se acirra à medida que o cerco aos fumantes se aperta. Será possível uma convivência pacífica entre os opostos? Creio que os dois lados devem procurar olhar seus “adversários” sob uma outra ótica. Os militantes antitabaco precisam de um olhar mais acolhedor e de menos enfrentamento. Tenho observado no consultório que a postura dos familiares de um fumante é de crítica extremada e de impaciência com aquele que, apesar de sofrer os males do seu vício, persiste no erro. Curiosamente, não raro, este familiar que tece críticas pesadas, quando indagado se alguém mais fuma em casa vê-se envolvido em um silêncio constrangedor quebrado apenas pela autoconfissão: “Sim doutor, eu fumo, mas...”. Segue-se então, um desfilar de argumentos atenuantes enquanto o paciente em silêncio, saboreia um raro momento de satisfação.
 
Estes familiares, fumantes ou não, desconhecem que no início, o ato de fumar pode ter sido uma opção - errada, é verdade - entretanto, a permanência no erro passa a ser uma necessidade determinada pela dependência química à nicotina. Claro que me refiro aqui aos fumantes que desejam parar de fumar e não aos tabagistas determinados como a escritora. A doença Tabagismo escraviza o fumante, reduz sua autoestima e gera um sentimento de culpa que aliado a outro sentimento, o de impotência constituem fardo já pesado o suficiente sobre os seus ombros. Se o desejo daqueles que são próximos é que o parente abandone o cigarro, devem recolher o dedo acusador e oferecer, em troca, apoio, encorajamento e auxílio para que ele procure tratamento médico para sua condição de dependente.
 
Tenho notado também, que os próprios fumantes parecem não enxergar esta realidade. É comum ouvir frases como: “... eu preciso tomar vergonha na cara e largar essa porcaria”. O que se espera do fumante é que tome em algum momento, não vergonha na cara e sim uma decisão a respeito da importância da cessação do tabagismo. E que procure ajuda caso não consiga se ver livre da dependência da nicotina por seu esforço pessoal apenas. Passemos agora à trincheira dos fumantes. Aqueles que se sentem invadidos nos seus direitos constitucionais até mesmo de morrer em paz, como a escritora defende, precisam compreender que o fumo incomoda e muito à grande maioria das pessoas. Incomoda inclusive a alguns não poucos fumantes que surpreendentemente não suportam o cheiro de cigarro. As conseqüências do fumo passivo estão bem documentadas em literatura médica e bem divulgadas entre o público leigo.
 
O alcance da fumaça de um cigarro pode chegar a 15 metros de distância o que pulveriza o argumento de áreas reservadas aos fumantes em restaurantes. A fumaça não obedece a placas e a direção do vento a conduz para qualquer lugar, na maioria das vezes, para a mesa dos não-fumantes. Esta é uma das principais zonas de conflito. Os fumantes, em geral, têm um prazer especial em fumar após uma refeição, ao passo que os não-fumantes têm um desprazer de mesma intensidade ao sentir o cheiro do tabaco contaminando o tempero da comida. Está estabelecido o conflito de interesses. A questão não é o quanto incomoda um fumante insistir em um hábito não saudável, mas sim o quanto o fumo incomoda as pessoas que não o toleram. Se um diabético insiste em atacar uma bandeja de brigadeiros em uma festa, o quanto isso incomoda os circunstantes? Veja que a questão aqui é o quanto incomoda e não o quanto preocupa.
 
Estou traçando um paralelo entre dois comportamentos sabidamente nocivos à saúde. As duas situações trazem preocupação principalmente por parte de quem quer bem aos “infratores”. Mas pense: incomodaria você o diabético acabando com a bandeja de brigadeiros? Acredito que não, a menos que ele seja um concorrente seu no consumo da guloseima. O fumante deve entender que o ato de ele ser fumante preocupa, mas é o ato de fumar que incomoda. O não fumante também deve direcionar suas energias contra o fumo e não contra o fumante. Nenhum dos dois lados deve levar as questões para o fórum pessoal. Que encontrem entendimento e selem uma convivência pacífica por qualquer meio, menos fumando um cachimbo da paz.

Marco Antonio Naletto
Médico pneumologista da Unidade Respiratória do Hospital Samaritano
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