O toque das mãos do rei

Eduardo, o Confessor, curando os escrofulosos. Miniatura inglesa do sec. XIII (Universidade de Cambridge). Extraído de Castiglioni A. Medicina no Fim da Idade Média. In: História da Medicina. Companhia Editora Nacional, 1947.

O misticismo desempenhou importante papel na Idade Média. A presença de amuletos, assim como a farmacopéia milagrosa, eram aliados importantes da medicina neste período. Prescrições de excreções de animais repugnantes caminhavam ao lado da crença absoluta no poder de demônios e feiticeiras. Era natural a terapêutica através de exorcismos, sendo o sacerdote o substituto do médico, este impotente para curar doenças devidas aos “espíritos malignos”. Foi nesse período que se originou a crença da cura da escrófula através do toque das mãos do Rei, perdurando isso por muitos séculos. Pensava-se que os reis recebiam o poder de curar após serem consagrados pelos Santos Óleos. Só quando este tratamento falhava é que se aconselhava recorrer ao cirurgião.
 
Na realidade, a tradição e o uso do poder de curar, como atributo divino ou real, remonta a épocas muito mais antigas. Imagens gregas de Esculápio representam-no colocando as mãos sobre o doente. Escritos romanos falam-nos de imperadores curando cegos e outras doenças. A cura pela imposição de mãos também faz parte da tradição cristã. 
 
A tuberculose linfonodal, à época chamada escrófula, foi conhecida na Inglaterra como “Mal do Rei”. Encontra-se nas crônicas de Eduardo, o Confessor (sec. X), o registro de curas obtidas pela imposição das mãos reais sobre a parte doente. Em livros da casa de Eduardo I há anotações sobre 43 pessoas tocadas pelo rei em 4 de abril, 192 na semana seguinte e 288 na Páscoa do ano de 1277. Até Shakespeare refere-se ao toque real em “Macbeth”.
 
Nesta época o rei da França também reivindicava para si o mesmo poder. Naquele país, segundo Tilemond, apud Castiglioni1, o rei preparava-se por meio de jejuns e orações, e após ter comungado e venerado o túmulo de S. Marcolfo em Corbigny, recebia os pacientes que desfilavam diante dele. Colocava os dedos sobre a parte doente, fazia o sinal da cruz e pronunciava as palavras: “O Rei te toca e Deus te cura”. O doente era abençoado e recebia comida e dinheiro para voltar para casa.
 
Existiram divergências sobre a prioridade dos reis da Inglaterra sobre os reis da França com relação ao toque real. Os franceses afirmavam que foi Clóvis (496 d.C.) o primeiro a usar o poder de curar. Os ingleses retrucavam dizendo que os reis da França herdaram este poder dos seus parentes, reis ingleses. Na Inglaterra a prática caiu em desuso pouco tempo depois. Na França ela permaneceu até o século XIX. Há referências que Luiz XVI, quando de sua coroação em 1775, tocou 2400 pacientes e Carlos X, em 1824, 121 doentes.
 
BIBLIOGRAFIA
Castiglioni A. Medicina no Fim da Idade Média. In: História da Medicina. Companhia Editora Nacional, 1947, pp 378-480.
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